ARTIGOS

A incomparável Sandra Cavalcanti

Por Prof. Paulo Fernando Melo

Sandra Martins Cavalcanti de Albuquerque, nasceu em Belém do Pará, no dia 30 de agosto de 1927. Filha do Professor Djalma Cavalcanti de Albuquerque, que ocupou o cargo de Diretor do Departamento Técnico Secundário da Prefeitura do Distrito Federal, e da Sra. Conceição Martins Cavalcanti de Albuquerque; os “Cavalcanti”, de tradicional família pernambucana, os Cavalcantis de Albuquerque, de Serra Telhada.

O seu avô paterno era o Sr. Adolfo Cavalcanti, General da reserva e a avó paterna a Sra. Júlia da Mota Cavalcanti. Pelo lado da bisavô materna, descendia da família portuguesa Alves da Mota, da cidade do Porto.  A Sra. Conceição Mendes Martins era a quarta filha do Coronel Antônio Pedro Martins que ocupou o cargo de Oficial de Gabinete do governador Lauro Sodré e foi prefeito de Porto Velho- RO.

Estudou na Escola Alemã, no Rio de Janeiro, e no Colégio Santa Maria, de Belo Horizonte. Ingressou na Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, onde se licenciou em letras clássicas.

Pós-Graduada em Língua Portuguesa, em Filologia e em Linguística. Foi ligada à Ação Católica, grupo de inspiração cristã-democrata, de orientação italiana.

Poliglota, dominava o alemão, francês, espanhol, italiano, grego e latim, lecionou língua portuguesa e literatura no Instituto de Educação, escola responsável pela formação das professoras primárias.

Aos 18 anos, proferiu palestra no Instituto Nacional de Ciência Política sobre o tema:” A Poesia de Tasso da Silveira”, abordando um estudo geral da literatura, recitou vários poemas e segundo ela toda a poesia de Tasso vem e vai para Deus.

Aos 19 anos redigiu o folheto “Viver guia do bom cidadão”, editada pela Cia. Sul Americana com orientação moral e cívica.

Em 1947, publicou o artigo “O problema da educação no Brasil” na Revista Formação, especializada em ensino, cujo primeiro número é de agosto de 1938, dirigida pelo seu pai o advogado do Clube Naval e professor Djalma Cavalcanti. A revista foi publicada por 16 anos, o último número foi editado pro Sandra Cavalcanti, em agosto de 1954, cinco dias após a sua morte, ocorrida no dia 10.

Sandra Martins Cavalcanti de Albuquerque

O pai foi amigo próximo dos escritores Malba Tahan, Lourenço Filho e militou na Ação Integralista Brasileira com Plínio Salgado.Foi secretário de educação do Pará e se preparava para ocupar o cargo de deputado federal pelo seu estado natal.

Botafoguense apaixonado foi um dos fundadores do Glorioso e também torcedor e atleta do Clube do Remo (PA) e além de Sandra teve mais três filhas (a Irmã Helena, Maria da Graça e Etelvina).

Em outubro de 1954, elegeu-se eleita vereadora com 3474 votos do antigo Distrito Federal, na legenda da União Democrática Nacional (UDN), cumprindo o mandato de quatro anos. Na Câmara Municipal, foi autora de um substitutivo à Lei de Diretrizes e Bases, apresentada pelo seu líder udenista Carlos Lacerda, na época Deputado Federal.

A respeito do pai disse: “em casa, como quem não quer nada, ele me ensinou tudo o que sei de educação hoje em dia. Depois do que meu pai me disse, ainda não ouvi nada de novo.”

A vereadora Sandra Cavalcanti foi autora da lei que denominou o prédio da Câmara Municipal de Vereadores de “Palácio Pedro Ernesto” em alusão ao primeiro prefeito eleito no Rio de Janeiro.

Recebeu do Cardeal- Arcebispo Dom Jayme de Barros Câmara a medalha e a fita da “Congregação Filhas de Maria”

Em 1956, no jornal “Gazeta de Notícias” indagou: “E se a Holanda e a Suíça e outras nações europeias as autoridades de maior representação utilizam bicicletas para atingirem suas repartições de trabalho, atingirem suas repartições de trabalho, porque os nossos edis não podem ir de lambreta para a “Gaiola de Ouro”.

Em 1957, entrou com ação declaratória na justiça contrária a criação da loteria esportiva.

Em 1960, elegeu-se deputada estadual com 14.513 votos, pela UDN, no estado da Guanabara, com o número 179 de campanha obteve o apoio da escritora Raquel de Queiroz, que vaticinou: “a quem um voto dado será um voto dignificado”. Votou favoravelmente a extinção da chamada “Gaiola de Ouro” alusão à Câmara Municipal de Vereadores do Rio de Janeiro.

A deputada Sandra Cavalcanti certa vez mostrou ao dep. Aliomar Baleeiro a fotografia de sua irmã Helena Cavalcanti que era freira. Baleeiro lamentou que uma moça tão bonita fosse esposa de Nosso Senhor. Sandra respondeu: “Garanto que Ele é melhor marido do que V. Excia.”. Em 1961, foi indicada pelo presidente Jânio Quadros (a quem apoiou para presidente) para chefiar a delegação do Brasil ao Congresso de Educação Primária, realizado em Genebra, na Suíça, onde apresentou tese sobre educação à distância.

Em 1961, presidiu a Comissão Especial para estudar o pedido de impeachment do Governador Carlos Lacerda, com relatoria do Dep. Roland Corbusier – ex-integralista, que no final o pedido foi arquivado.

Como deputada udenista, era a porta-voz do jornalista Carlos Lacerda, que havia sido eleito governador (1960-1965) e se tornara líder de um dos mais importantes grupos opositores do governo João Goulart o denunciou que seria dono de um cabaré, “Balalaika” em São Borja – RS.

Declarou que tinha certeza de que o Governo João Goulart seria uma catástrofe para o Brasil, contudo, defendeu a sua posse na Assembleia Legislativa: “Defendo-a – disse ela- por amor à Constituição, que dá ao Sr. João Goulart o direito de desgovernar o país, que é a única coisa que ele sabe fazer”.

Em 1961, declinou do convite ao Presidente Jânio Quadros para ser a Embaixatriz do Brasil na UNESCO e defendeu o fim dos carros oficiais e o direito dos homens serem professores primários.

Certa ocasião, o presidente da ALERJ Dep. Lopo Coelho falou no microfone: “Senhores deputados, queiram tomar seus lugares”. E ela disse lá do seu lugar: “… amarrem os cintos e boa viagem”.
Em outubro de 1964, Sandra Cavalcanti ocupou a Secretaria de Serviços Sociais da Guanabara, removendo inúmeras favelas para conjuntos habitacionais e criando a Cidade de Deus, Vila Kennedy e Vila Aliança tendo sido mais tarde acusada injustamente pelo seu adversário Miro Teixeira de jogar mendigos na Adutora do Guandu o que resultou numa ação judicial contra Miro no STF , na qual foi defendida pela escritora Raquel de Queiroz ,em artigo publicado pela Revista “O Cruzeiro” (Ed.019) ,intitulado “Os Morros da Cidade”.

Distribuiu a farinha americana ‘EUBRA’ para 300 mil gestantes no Centro Dom Jaime Câmara da Arquidiocese do Rio de Janeiro no programa “Aliança para o Progresso” do governo estadunidense.

Favorável ao movimento político-militar de 31 de março de 1964, foi nomeada, presidente do Banco Nacional da Habitação (BNH), por indicação do presidente da República, general Humberto de Alencar Castelo Branco. O programa habitacional do BNH, criado naquela ocasião, teve início no Rio de Janeiro, onde cerca de 30 mil pessoas se inscreveram, foi grande incentivadora das cooperativas habitacionais.

Em 1964, em entrevista para o “Jornal do Brasil”, a Deputada Sandra Cavalcanti falou sobre o método Paulo Freire, de alfabetização de adultos: ‘O famoso método Paulo Freire não existe. Trata-se de uma mistificação, dessas que surgem de vez em quando, reanunciando nascimento de cabelo em carecas”.Depois continuou: ‘O que é novo no método Paulo Freire é o abuso e o desrespeito à personalidade do educando, a covardia de invadir a sua humildade e a sua ignorância, sem ser com a intenção reta de libertá-lo dessa incapacidade técnica.”

Por diversas vezes cobrava que os dirigentes da União Nacional dos Estudantes – UNE prestassem contas das despesas.

Articulou a Frente Ampla quando de passagem por Lisboa, conversou com JK que estava impaciente no exílio, Sandra sugeriu um entendimento com Lacerda, e JK deu a Sandra uma carta nomeando o seu representante nas conversações o Dep. Renato Archer (PSD/MA), que terminou por representar tanto JK quanto a João Goulart nos entendimentos com Lacerda via Sandra Cavalcanti.

Foi cogitada a ser lançada candidata a governadora nas eleições cariocas de 1966.

Em 1967 foi escolhida pelo juiz Gama Malcher para participar do Júri Popular.

Foi filiada à Aliança Renovadora Nacional (Arena). Em 1974, elegeu-se deputada estadual com o número 1372, sendo a mais votada do partido com 34.516 votos, à Assembleia Constituinte Estadual na nova unidade da Federação, fez dobradinha com Amaral Netto, deputado federal, com o número 203.

Pioneira defendeu a criação do Ministério para Assuntos Femininos indicando a Professora Esther Figueiredo Ferraz, que mais tarde ocupou o cargo de Ministra da Educação, ou a amiga escritora Raquel de Queiroz para tal honraria.

Em 1975, defendeu o acordo nuclear Brasil-Alemanha.

Em 1977, na morte do seu líder político Carlos Lacerda disse: “Foi a maior liderança política de nossa geração. Com o tempo, sem paixões, ele poderá ser julgado. Quando entrou em desgraça, era permitido atacá-lo, sem que ele pudesse se defender, não era rancoroso, nem vingativo”.

Em 1978, foi derrotada pelo líder do MDB Nelson Carneiro para o Senado Federal a outra vaga, preenchida bionicamente viu-se ocupada pelo seu adversário Amaral Peixoto.

Fez um curso na Columbia Broadcasting System (CBS) e usou amplamente os meios de comunicação de massa, em programas populares de televisão na Excelsior com “Sandra Confidencial”, e fez muito sucesso no Jornal da Noite na extinta TV Tupi com um programa diário considerado um marco no telejornalismo brasileiro. Atuou na Rádio Tamoio (RJ) e mantinha uma coluna assinada no jornal Última Hora (RJ) e depois na Revista “O Cruzeiro “, defendendo a tese de uma nova Assembleia Nacional Constituinte e a criação do Dia das Mães.

Defendeu a candidatura do Senador Magalhães Pinto na sucessão do Presidente Ernesto Geisel.

Fundou o PDR – Partido Democrático Republicano conseguindo o registro provisório, mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que os partidos com o registro provisório não poderiam disputar eleições naquele ano, migrando para o PTB de Ivete Vargas onde disputou a eleição direta para Governador do RJ em 1982, ficando em quarto lugar.

Em 1986, elegeu-se deputada federal constituinte pelo PFL sendo a segunda mais votada do estado, perfazendo um total de 137.595 votos, ocupando o cargo de vice-líder de seu partido na Câmara dos Deputados. Na Assembleia Nacional Constituinte, participou da Subcomissão da Família, do Menor e do Idoso, da Comissão da Família, da Educação, Cultura e Esportes, da Ciência e Tecnologia e da Comunicação: Suplente, 1987; Comissão de Sistematização: Titular, 1987-1988.

Fez a campanha vitoriosa do Senador Afonso Arinos para a presidência da Comissão de Sistematização da Assembleia Nacional Constituinte, tendo sido eleita a relatora-adjunta.

Discutiu com o Senador Bisol (PSB/RS), o qual apresentou emenda determinando a igualdade de homens e mulheres, exceto na gestação, no parto e na amamentação, Sandra retrucou:” assim sendo a menstruação não poderia ficar de fora.”

Ao se referir ao deputado Maurílio Ferreira Lima disse:” Ele é presidencialista, mas fuma Havana e é de esquerda.”

Foi uma parlamentar atuante defendendo a livre iniciativa e a não ingerência do Estado e criticando o uso de decretos-leis. Também criticou a ampliação de impostos e a aplicação de empréstimos compulsórios, sem o prévio debate no Congresso Nacional.

Líder da bancada católica votou contra a aplicação da pena de morte, a legalização do aborto e a limitação do direito de propriedade privada. Foi favorável à estabilidade no emprego, à remuneração 50% superior para o trabalho extra e apoiou o mandato de cinco anos para o presidente José Sarney.

Apresentou o PL 1763/91 para vedar a utilização de dormentes de madeira na construção de ferrovias e o PL 2079/89 que definia a instituição da adoção.

Na política do Rio, destacou-se como uma antibrizolista ferrenha e defensora maior do “Lacerdismo”; e foi a mais destacada defensora da instalação do parlamentarismo tendo inclusive apoiado o candidato Mário Covas do PSDB na eleição presidencial de 1989.

Considerava um “dever de estado lutar pela união contra Leonel Brizola” que segundo ela destruiu o Rio e aniquilaria o Brasil.

Foi chamada pelo cronista e compositor Antônio Maria de “a mal-amada do Lacerda”. “É engano seu”, retrucou. E começou a cantarolar num sorriso: “ninguém me ama, ninguém me quer…” (letra de Antônio Maria).

Candidata à reeleição em outubro de 1990, na legenda pefelista, Sandra Cavalcanti foi eleita com 60 mil votos, metade da votação anterior, mas ainda assim, a maior de seu partido.

Em 1990, coordenou a Barraca do Rio de Janeiro na Festa dos Estados em Brasília festa originalmente criada pela Sra. Carmela Patti Salgado.

Em 1992, apoiou à abertura de um processo de impeachment contra o presidente Fernando Collor, e apoiou a campanha vitoriosa de César Maia, candidato do PMDB à prefeitura do Rio.

Em 1993, participou ativamente da campanha a favor do parlamentarismo para o plebiscito sobre o sistema de governo.

Filiou-se ao Partido Progressista Reformador (PPR), resultado da fusão do PDS com o PDC. Ocupou a presidência da Comissão de Transportes da Câmara, e conseguiu a aprovação da chamada Lei dos Portos, responsável pela reformulação e privatização dos portos brasileiros.

Em 1995, assumiu a Secretaria Extraordinária de Projetos Especiais da Prefeitura do Rio de Janeiro, cujo titular era César Maia, tornando-se membro do Conselho Municipal de Desenvolvimento Econômico e Social.

Em 1996, criticou as filmagens do videoclipe do cantor Michael Jackson com crianças miseráveis no Morro Dona Marta, afirmou: ‘Nossa imagem de miséria está sendo usada para uma música com letra cretina”.

Foi também indicada pelo prefeito para representar o município no Conselho Portuário, visando à ampliação do porto de Sepetiba no estado do Rio de Janeiro.

Em 1997, na gestão de Luís Paulo Conde na Prefeitura do Rio coordenou a visita do papa João Paulo II à cidade no mês de outubro daquele ano.

Foi diretora de um Jornal na TV Tupi, e teve participação consagrada no corpo de jurados do “Programa de TV Flávio Cavalcanti” e estrelou o programa Manchete Shopping Show na TV Manchete ao lado de Clodovil Hernandez, Scarlett Moon e Eduardo Mascarenhas.

Participou dos Conselhos dos grupos Lasa S.A., Cruzeiro do Sul, Carvalho Hosken S.A e foi membro ativa do grupo católico Centro Dom Vital.

Ao longo de sua extensa vida pública, assinou mais de dois mil artigos para jornais e revistas e publicou livros: “Rio, viver ou morrer” (1978), “Política nossa de cada dia” (1982), “Os arquivos de Deus” (1996), “Participação dos trabalhos na Constituinte de 1987 resumo” (1987), “Ecologia e Meio Ambiente” (1990) e “A escalada da segurança” (2002).

No Jornal A Folha de SP publicou o artigo “Sim: a favor da defesa da vida” em 12 de dezembro de 1987, dia consagrado a Nossa Senhora de Guadalupe.

Em entrevista a Revista do Rádio (Ed. 771), disse que a maior recordação da vida foi a presença na Santa Missa no Santo Sepulcro e que era uma mulher combativa, paciente, perseverante e muito desconfiada.

Foi noiva duas vezes, em 1950 e 1956.Da segunda vez, do Capitão Maurício Cibulares, coordenador de sua campanha eleitoral em 1982. Tinha como hobby o desenho, a pintura e a escultura.

Tive a oportunidade de receber o exemplar “Perfis Parlamentares – Carlos Lacerda” com o seu autógrafo dotado da linda letra de professora, em 1991.

Foi agraciada com uma rua com seu nome na cidade do Rio de Janeiro no bairro Padre Miguel.

É botafoguense convicta e fazia pilhérias com Carlos Lacerda, flamenguista nos áureos tempos do Glorioso de Garrincha.

Sua irmã Helena Cavalcanti, de 95 anos, segue freira e Fundadora da Ordem Nossa Senhora de Belém com sede em Jacarepaguá no RJ.

Aos 93 anos, a renomada professora reside na Cidade Maravilhosa, na Rua Peri desde criança, não deixou herdeiros diretos, mas nos brindou com um grande legado de dedicação à educação, à habitação popular, ao Rio de Janeiro e ao Brasil.

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