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Paulo Fernando: Professor, assessor, cristão e político

Sentado nas escadarias da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, na Asa Sul, Paulo Fernando Melo da Costa, Paulo Fernando ou Paulo do Pró-Vida(ou ainda professor Paulo) nos conta sobre sua trajetória política, religiosidade e o trabalho que desenvolve em favor da vida.

De família piauiense, Estado pelo qual nutre inigualável estima, este botafoguense convicto disputa uma vaga na Câmara dos Deputados e pretende ser o primeiro deputado federal nascido em Brasília. Entrar no páreo do pleito foi apenas conseqüência de uma vida ativa como assessor parlamentar, professor de direito constitucional e eleitoral, membro da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Brasília, da Equipe de Métodos Naturais e ativista da Organização Não-Governamental Pró-vida, que luta contra o aborto.

Trabalhou como assessor de expoentes da política nacional, dentre eles o deputado Enéas do PRONA. Decidiu disputar cargo eletivo quando percebeu que as questões da temática de bioética estavam sub-representadas. “Há 20 anos acompanhando os diversos projetos da Câmara e no Senado, observei que estávamos órfãos. Não há uma voz de alguém que conheça essas questões de bioética que fale efetivamente em nome da sociedade. Muitos candidatos se dizem católicos e evangélicos, mas não tem no foco do seu trabalho a defesa da vida, afirma.

A atuação de Paulo Fernando contra o aborto, em favor da vida, começou ainda na juventude, quando sua primeira namorada, grávida e dividida entre abortar e ser desprezada pelo pai tirou a própria vida. A partir daí passou a convencer, pela “Operação Resgate”, jovens e mulheres em situações semelhantes a não praticarem o aborto. E para atingir seus objetivos valia tudo: distribuição de milhares de panfletos, bebês em gesso, bottons com pezinhos do pró-vida, filmes com imagens fortes de abortos, inúmeras palestras, entrega de enxovais, militar na frente de hospitais e clínicas, denúncias na polícia, ações judiciais e até mesmo conduzir as crianças à adoção.

Política, religião e futebol

Quem conhece Paulo Fernando bem sabe que suas opiniões são firmes. Ainda mais no que se refere à tríade que ninguém gosta de discutir. O que se ouve com freqüência é que futebol, política e religião não se discutem. Paulo discorda dessa premissa. “Política se discute sim, até porque atinge a vida de todo mundo. O futebol faz parte da paixão nacional desde que as pessoas não cheguem às raias do fanatismo e da violência. Discutir se foi pênalti ou não, se o juiz roubou ou não é sempre muito bom. E sobre a religião, ela deve ser respeitada e, na medida do possível, levar o anúncio do Evangelho”, vibra.

Prova que política e religião são temas difíceis de serem digeridos pela sociedade, são as duras críticas que Paulo Fernando recebe ao tentar conciliar a convicção religiosa com o dia a dia parlamentar. Isso porque há no imaginário coletivo das pessoas o chavão que o Estado é laico e não deve interferir nos assuntos religiosos. “Isso é um equívoco. O fato de o país não ter uma religião oficial não significa que ele seja desprovido de sentimento religioso. A Câmara dos Deputados é uma casa representativa, e lá há espaço para sindicalistas, fazendeiros, industriais, e há, evidentemente, um espaço para uma bancada católica, completa.

Sobre o fato de ser considerado candidato da Igreja local, ele é enfático: “A igreja não tem partido nem candidatos, a igreja não precisa dos políticos. Como mãe e mestra ela (a Igreja) tem a obrigação de despertar as consciências de seus fiéis para, livremente, escolherem pessoas preparadas, éticas e compromissadas com a família, com a igreja, com a sociedade e com o Evangelho. A população brasileira é predominantemente cristã e católica. É natural e justo que essa maioria esteja efetivamente representada”.

Uma campanha simples

Durante a entrevista, sem poder perder tempo, Paulo abordou alguns fiéis que passavam a fim de distribuir seu material de campanha contra o aborto. E tem sido assim, no boca a boca, nas visitas a grupos e pastorais e nas diversas palestras que ele faz sobre controle demográfico, ataques a vida e a família, afetividade, namoro e aborto. São nos pequenos contatos que ele apresenta suas propostas e pede que as pessoas o recomendem. “A campanha é uma provação. Chega a ser desleal. Outros concorrentes gastam dois, três, quatro milhões. Compram muros e consciências. Distribuem cestas básicas, sacos de cimentos e fazem até laqueaduras. Mas nós fazemos parte de um projeto sério, prudente, sereno, para despertar nas pessoas não só uma consciência cívica, mas também a importância de termos representantes comprometidos”, acredita.

Paulo Fernando, que não tem ajuda da coligação para sua campanha, recorre à providência e ajuda de amigos, que voluntariamente, fazem o trabalho de divulgação. Ele reconhece: “É humanamente impossível uma campanha como a nossa, sem dinheiro, atingir os 60 mil votos necessários, mas eu creio firmemente na providência e que por meio dos movimentos leigos e pastorais, das pessoas que conhecem nosso trabalho no pró-vida, dos ouvintes da rádio novo aliança, que nos acompanham a oito anos, dos meus ex- alunos, dos clientes do escritório de advocacia e amigos, faremos uma corrente do bem. Assim mostraremos para a sociedade que é possível fazer uma campanha limpa, correta, sem comprar votos, para alcançar o necessário”.

O bate-papo foi longo. Se deixar, ele conversa sem cessar. O sino tocou. Paulo partiu com seus apetrechos, para mais uma palestra. A campanha não pode parar. Ainda no estacionamento distribui mais alguns panfletos. É incansável. Veremos o resultado nas urnas. A seguir, estão fragmentos da entrevista.

O que pensa Paulo Fernando

Os católicos demoraram a acordar para vida política?

“Não. Tudo vem no tempo certo. Nós tivemos vários entraves nos últimos anos, como o PL que prevê a descriminalização do aborto, legalização das drogas, divórcio instantâneo, regularização dos bingos e jogos de azar e o estatuto da família. Uma série de projetos que fazem fomentar na consciência de todos nós que nós devemos fazer alguma coisa. Não podemos ficar com os braços cruzados. Omissão é um erro grave”.

Por que a tríade Vida, Família e Cidadania?

“Vida – Meu trabalho no pró-vida é inspirado nos Santos Inocentes da passagem de Mt. 2,16, onde o Rei Herodes manda matar todas as crianças com menos de dois anos de idade. A primeira criança que morreu, foi a primeira pessoa que morreu em nome de Jesus Cristo. Hoje lutamos contra os novos Herodes da sociedade.

Família – Quero combater os projetos que fragilizam a família e a sociedade. Se a família estiver fraca, a sociedade fica fraca e conseqüentemente o país. O fortalecimento da família é muito importante. Sugiro no âmbito do DF a criação da Secretaria da Família, e no âmbito nacional o Ministério da Família. Órgãos que tratariam de todas as políticas públicas direcionadas para a família, desde as crianças no ventre materno até os idosos.

Cidadania – Como advogado e assessor parlamentar, creio firmemente na necessidade de implantar a Reforma Política, urge mudança no direito e na legislação”.

Existe Guerra Santa?

“Não. Isso suscita apenas para gerar polêmica e vender jornal. Nossos irmãos evangélicos têm sua conduta, postura e muitas delas são convergentes, inclusive na defesa da vida. A guerra tem que ser travada na conversão daqueles que ainda não conhecem o evangelho de nosso Senhor. Convivo e assessoro inúmeros deputados evangélicos. Brigar não leva a nada.”

Como encara a vida de Professor?

“Encaro como uma missão e como instrumento na vida das pessoas. É muito bom imaginar que aquilo que você fala, não só do conteúdo, mas dos conselhos que dá na sala de aula, leva as pessoas a realizarem seus sonhos, a alcançar o emprego desejado, se casar, ter mais filhos, realizar uma cirurgia plástica no nariz grande (risos), trazer a mãe do interior do Maranhão. Eu fico muito feliz quando chego a um órgão público e encontro alguém que diz: ‘fui seu aluno e passei num concurso’”.

Sendo eleito: do que vai abrir mão?

“Talvez de um pouco do lazer. Talvez eu não possa assistir a tantos jogos do meu querido botafogo. Só espero não ter que abdicar da leitura e do convívio e brincadeiras com meus três filhos. Sou um leitor voraz. Tenho uma grande biblioteca. Mas espero que isso não aconteça. Mas acho que nada vai ser difícil, pois tudo que eu faço só é possível porque fui agraciado com uma santa esposa que aceita e apóia o meu trabalho. Eu sempre me regozijo com Deus por ter me concedido essa esposa”.

Avalie o cenário da política

“Estamos à beira do abismo. A política do DF está destroçada. A Câmara Legislativa “Casa do Espanto”, desmoralizada. Há um grande índice de pessoas que desejam votar branco e nulo. No cenário nacional existe a dicotomia PT e não PT, mas no fundo a política econômica de ambos os partidos é a mesma. Mudou a sopa, mas as moscas são as mesmas. Os mesmos de Brasília, não são eternos”.

Anular o voto é bom?

Voto branco e nulo é uma omissão, é negar uma realidade. É contribuir para aqueles que não têm o apoio da maioria possam ser eleitos. Com o voto branco e nulo você auxilia para diminuir o coeficiente partidário. Diminuindo a legitimidade daqueles que por ventura forem eleitos.

Você participou Projeto Ficha limpa?

“Lá na Câmara foi constituída uma comissão especial, cujo presidente era o deputado Miguel Martini, que representa a bancada católica. Essa comissão foi destinada a apresentar um estudo sobre o ‘Ficha Limpa’, projeto de iniciativa popular que fala sobre a inelegibilidade. Eu fui nomeado por conta de minha formação em direito eleitoral, para ajudar. Pude dar minha colaboração na elaboração do relatório do deputado Índio da Costa que agora é vice do José Serra. Não foi a redação ideal, mas foi a real. Foi o possível fazer dentro das controvérsias que o projeto suscitou na Câmara. A redação ideal é uma legislação mais dura, mais contundente, sem a possibilidade de tantos recursos e liminares das pessoas que foram efetivamente condenadas pela justiça. Mas o Estado Democrático de Direito deve ser respeitado, além do contraditório e da ampla defesa. É um passo importante, inicial, didático, pedagógico e já está surtindo efeitos nessa primeira eleição”.

Qual é o trabalho que você desenvolve sobre as questões indígenas?

“Em me deparei com a realidade no Brasil da matança das crianças indígenas por causa de tradição cultural nociva de algumas tribos. Por exemplo, se a índia teve gêmeos, existem culturas que acreditam que a primeira criança é um espírito do bem e a segunda um espírito do mal. Por isso, enterram a criança viva em um buraco. Os novos Herodes da FUNAI (Fundação Nacional do Índio) acham que o direito à cultura do índio é superior ao direito à vida. Isso é uma aberração não só do ponto de visto do direito natural, como da vida humana. Imaginar que uma criança pode ser condenada à morte por ser gêmea, ter lábio leporino ou alguma mancha no corpo. As crianças são resgatadas nas tribos e elas são levadas para uma ONG chamada “ATINI” e muitas crianças já foram salvas”.

Não são temas que chamam a atenção…

“Infelizmente o público analisa as coisas de maneira superficial. Quando se fala em aborto, eutanásia, as pessoas acham que isso não faz parte de seu mundo e preferem ficar nas trevas. São assuntos que ninguém quer falar sou porta-voz daqueles que não tem voz. Defendo aqueles que não têm direito à defesa. É a criança no ventre materno, o indígena, o idoso no leito do hospital do qual querem desligar o aparelho por questões econômicas”.

Essas são suas estratégias eleitoreiras?

“Não são estratégias eleitoreiras. É um ministério de vida. Muitos mostram aquilo que pretendem fazer, o que eu acho justo. Mas, ao contrário deles, eu mostro aquilo que venho fazendo. Independentemente do resultado das eleições vou continuar realizando. Só que tem passado garante o futuro”.

Quais são suas pretensões no Congresso?

“Ser o porta-voz da Cristandade, unir a bancada católica e evangélica, a defesa intransigente pelo direito à vida, defender a promoção humana em todas as suas dimensões. Quero ter a intrepidez para denunciar os organismos internacionais que financiam os movimentos feministas e abortistas no Brasil, ter coragem para lutar pelos direitos da população mais carente, ser um testemunho e poder fomentar os vocacionados a também entrarem na política. defender a propriedade privada e a legítima defesa também. Eu quero ser apenas o pioneiro dessa experiência inovadora. Quem sabe daqui há pelo menos 20 anos nós tenhamos um brasiliense efetivamente católico na presidência”.

O que te diferencia dos demais candidatos?

Três tópicos: O primeiro é o preparo. Muitos não têm conhecimento das matérias abordadas, dos projetos em pauta, assinam sem ler, votam sem estudar e não tem assessorias preparadas com especialistas em regimento, direito e processo legislativo. Falta preparo e esforço pessoal para estudar as demandas. Do ponto de vista ético muitos deixam a desejar. Tem pessoas de bem, eu reconheço, mas tem muitos que são verdadeiros chefes de quadrilha. E principalmente compromisso: Muitos estão ali para representar apenas o lobby do sistema financeiro, da indústria automobilística, química, farmacêutica. Eu faço lobby em favor da vida e da família.

Você é radical?

“Sim! Sou um contra-revolucionário , afinal radical vem do latim “radicare” aquele que vai ao fundo, na raiz diferente de intransigência. Inspiro-me em Nossa Senhora de Fátima, do qual sou devoto. Ela mostrou a imagem do inferno a três crianças. Qualquer coisa que eu faça aqui é fichinha”.

E sobre a homossexualidade?

“Em relação aos nossos irmãos que vivenciam a homossexualidade, nós entendemos que é um assunto delicado, mas o que eu particularmente tenho ressalvas é em relação à apologia que se faz à conduta libertária do sexo desenfreado, da zoofilia, do bissexualismo, sexo grupal como se fosse uma coisa normal. Reconheço que como cidadãos todos devem ser respeitados. Se todos são iguais perante a lei, não se pode dar mais direito a eles porque têm uma conduta sexual diferente dos demais como prevê o PLC 122/2006. Senão você cria uma figura jurídica, um brasileiro, com super poderes. A isso, evidentemente, como advogado somos contrários. Todos devem ser respeitados, como pessoas. Não devem ser objeto de discriminação como qualquer outra pessoa, seja o heterossexual, o viúvo, o flamenguista, o piauiense, o baixinho ou gordinho.

Um conselho e um recado para os eleitores

“Conselho: Deus não pisca e tem pressa. O recado: aproveite o tempo da campanha para conhecer o perfil e as propostas do seu candidato, conhecer seu passado, pegar referências do seu trabalho desenvolvido, das recomendações de quem o conhece. Não venda seu voto e sua consciência. As pessoas às vezes só se importam com os candidatos ao Poder Executivo. Preste atenção nos candidatos ao parlamento, veja se ele é preparado, ético e compromissado. Assim poderemos eleger pessoas honradas que sejam tementes a Deus, defendem o bem do Brasil e valorizem a família, assim teremos uma nossa sociedade mais justa, fraterna e solidária”.

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